Contexto Histórico

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15/12/09

Escola, educação, ensino de História, e a Comunicação no Mundo Contemporâneo

Tema específico: A questão da Linguagem na Escola e no Ensino. Questões periféricas: Língua, História e Poder; a linguagem como barreira ou elemento de libertação do indivíduo. Os desafios da mediação entre a linguagem popular e a ‘língua culta’. A linguagem do cinema e as mediações e/ou conflitos culturais; a tecnologia e a cultura. LÍNGUA, HISTÓRIA E PODER A língua como instrumento de dominação por vezes é negligenciada, ou mesmo ignorada, como se fosse um processo neutro, supra-social ou supra-histórico, como lembra Mário Maestri em "A Linguagem Escravizada” (1). Como caso exemplar usaremos o processo de colonização do Brasil, mas poderiamos nos utilizar do processo hegemônico da Inglaterra e, posteriormente, dos EUA quanto às imposições sociais, culturais e de sua língua, por exemplo. Marx e Engels, em ‘A ideologia Alemã’ já lembravam, que a linguagem, tão antiga quanto a consciência, é produto dos intercâmbios sociais, fenômeno portanto histórico e social. A língua hegemônica (dos dominantes) necessita sufocar e suprimir os timbres das vozes e línguas dos oprimidos, como condição essencial da manutenção da dominação dos detentores do poder hegemônico. Usar a voz dos outros seria então, uma forma de supressão e de opressão, e só poderíamos nos libertar, em tese, ao assumirmos nossa própria voz, o que se torna cada vez mais difícil num mundo globalizado, onde o inglês, por exemplo, vem dissolvendo as fronteiras dos espaços chamados ‘nacionais’. Mas a defesa do Português em território brasileiro consolidaria uma ‘identidade nacional’, ou apenas consolidaria a hegemonia de uma elite nacional, em detrimento de outra, estrangeira? Até que ponto a ‘nossa língua portuguesa’ é realmente nossa? Ao chegarem ao Brasil, os portugueses encontraram aqui milhões de nativos (chamados ‘índios’, em alusão às Índias Ocidentais, alcunha européia a este pedaço do mundo), que dominavam centenas de idiomas (chamados de ‘dialetos’), entre os quais alguns também hegemônicos, como o Tupi, na costa. De princípio, os Jesuítas que acompanhavam a missão colonizadora, trataram de aprender o dialeto mais importante, e Padre Anchieta chegou a editar em 1595 uma Gramática de Tupi (“a língua mais usada na costa do Brasil”, afirmava). Outros seguiram o mesmo caminho, criando livros que facilitavam a comunicação entre estes dois mundos tão diferentes social e culturalmente. No século XVII um padre da Bahia, o jesuíta Pedro Dias, chegou a editar uma Gramática Kimbundo, de origem Angola, também preocupado com a comunicação entre os escravos africanos e os senhores portugueses. Estas iniciativas (das gramáticas tupi-guarani ou kimbundo), por si, já homogeneizavam as diferentes línguas dos povos africano e indígena, levando ao surgimento de uma terceira via, denominada ‘língua geral do Brasil’, de caráter profundamente simplificador, tanto do ponto de vista fonético, como morfológico e sintático. Mesmo assim, era uma Segunda língua, tolerada e praticada em oposição ao português, sob a ‘tolerância’ do colonizador-invasor. Durante dois séculos a língua geral acabou sendo mais difundida no Brasil do que o Português. Este equilíbrio foi alterado a partir da expulsão dos Jesuítas do Brasil pelo Marquês de Pombal (meados do século XVIII). No início do século XIX, quando já haviam sido enviados ao Brasil mais de 5 milhões de africanos, e os indígenas praticamente haviam sido dizimados, os portugueses se viam às voltas de novos falares: o jeje, o nagô-ketu, o kigongo, o kimbundo, o mandinga, o umbundo, entre outros. Estima-se que o tráfico negreiro trouxe para o Brasil falantes de mais de 300 línguas. A chegada da família Real ao Brasil (1808) fez esta diversidade linguística ser reduzida a quase zero. Um decreto de Pombal quatro décadas antes já havia determinado a língua portuguesa como a língua oficial e única do Brasil, mas seus efeitos práticos ainda não se faziam sentir. A côrte de Dom João VI, foragida da invasão napoleônica a Portugal, trouxe simplesmente cerca de 15 mil portugueses ao Brasil, entre nobres, comerciantes, funcionários da burocracia estatal, militares e serviçais de toda ordem, todos falantes da língua ‘oficial’. Rapidamente, foram instaladas no Brasil a Imprensa Oficial, gráficas para a impressão de livros, jornais, construídos teatros, entre outras medidas que começaram a mudar rapidamente a desvantagem cultural e linguística do português, verificada até então. Um dos problemas da implantação da hegemonia linguística no Brasil foi o pequeno número de falantes do português erudito, ou seja, alguns padres, funcionários e militares de alta patente, engenheiros, advogados e outros letrados, formados em Portugal. Na verdade, o ensino da língua culta nunca chegou a ser uma prioridade, ao menos em relação aos pobres, escravos e indígenas. A eles era reservado apenas o ensino do falar básico da língua, o suficiente para uma comunicação entre senhores e comandados. Ainda nos primeiros séculos da colonização a posse de livros era controlada, e alguém que fosse apanhado com livros sem autorização poderia até ser alvo de processo pela ‘Santa Inquisição’. Ou seja, a dominação pela língua enfrentava a contradição de não permitir o acesso a ‘todo’ o código linguístico do dominante, mas apenas o suficiente para a efetivação desta dominação, suprimindo a cultura dos dominados, sem no entanto, oferecer mais que ‘migalhas’ dos novos códigos culturais impostos. Hoje vemos este fenômeno com a língua inglesa, em que jovens dominam o inglês ‘internetês’’, sem que consigam dominar o idioma, incapazes de travar uma conversação minimamente convincente com um interlocutor estrangeiro cujo idioma corrente seja o inglês. Esta condição não é incidental, se a compararmos com os nativos do Brasil e os africanos, desalojados de suas próprias línguas e culturas, por imposição de força, mas ao mesmo tempo, impedidos de frequentar os bancos escolares dos ‘dominadores’. Assim, indígenas que insistissem em falar o Tupi, ou Africanos que usassem a língua nagô diante de seus senhores, seriam fortemente castigados fisicamente, como se o próprio uso da língua nativa fosse um gesto de traição e sinal de rebeldia. No século XX, durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil proibiu o uso do Alemão, do Italiano e do Japonês, entre os colonos locais. O uso da língua de origem poderia levar um imigrante à prisão, o que ocorreu por diversas ocasiões naquele período, o que demonstra que a dominação pela língua não foi apenas um processo colonial no Brasil. Este ‘policiamento linguístico’ como dizia Gilberto Freyre, não foi suficiente para a ‘purificação’ da língua portuguesa em terras tupiniquins, e hoje o que vemos é a influência de milhares de palavras de origem indígena e africana na língua portuguesa, além dos regionalismos que levam a uma espécie de ‘poliglotismo’ brasileiro, ou seja, dezenas de ‘dialetos’ locais, com expressões regionais próprias em cada região brasileira, onde todos entendem razoavelmente o que cada um diz em qualquer parte do país, mas cada um guarda suas próprias características e cores locais, no falar e no escrever. Ao ser fundada, a Academia Brasileira de Letras (1897) tinha (e tem!) entre seus objetivos, disciplinar e policiar a língua escrita e falada no Brasil, defendendo o padrão culto como única forma correta de comunicação nacional. Um caso exemplar deste ‘policiamento’ levado ao pé da letra foi o do compositor paulista Adoniran Barbosa. Em suas músicas, termos como ‘lâmpida’, ‘encontremo’, ‘réiva’, ‘pessemo’, entre outros, foram considerados impróprios pela Censura Federal durante a ditadura, e os censores zelosamente recomendavam que as letras seriam liberadas se houvesse a ‘correção gramatical’ de acordo com as normas da língua portuguesa. O professor poderia, em sala de aula, inclusive sugerir aos alunos que tentassem ‘consertar’ as letras de Adoniran, para que se perceba que a musicalidade e a graça das mesmas se perderia completamente, se as ‘recomendações’ da censura federal fossem aceitas. O padrão atual aceito no Brasil é da língua portuguesa falada pelas elites brasileiras, particularmente do eixo Sudeste (entre SP e RJ, particularmente). Esta padronização é percebida particularmente nos noticiários de TV, onde os locutores dos noticiários não tem sotaque nenhum, falando uma língua de algum lugar que ninguém sabe de onde é, mas que se situa em algum ponto do Sudeste, entre o Leblon e a Avenida Paulista. Segundo Maestri e Carboni, a opção pelo padrão culto no Brasil foi “um divisor de águas, entre a plebe ignara e as elites dominantes”.(2) O Brasil se divide, então, entre os que dominam a linguagem falada, a popular e a escrita. Os que dominam a última desprezam os primeiros, particularmente os ‘vulgares’ que só dominariam a língua popular, numa clara desvalorização da tradição oral ou da oralidade propriamente dita, assim como nos últimos séculos a tradição oral foi desprezada pela Historiografia oficial, que só se apoiava nos documentos escritos. Em termos históricos, verifica-se que no Brasil, “o elitismo linguístico e o uso da cultura como forma de discriminação social, foram duas profundas heranças da colonização portuguesa” (3) O linguista Serafim da Silva Neto(4) chegou a afirmar em 1951 que a linguagem popular seria “o simples meio de comunicação da gente humilde, na maioria analfabeta”. Caberia às pessoas “mais finas e cultas”, que dominam a língua escrita, “manter a unidade” da língua portuguesa, e não aos pobres e humildes. Porém, e apesar de tudo, as chamadas classes populares resistiram, mantiveram e mantêm sua forte influência na cultura nacional, em que pese esta pressão das elites na tentativa de impor hegemonicamente o seu projeto social, cultural e de valores, baseados no consumo e na acumulação do capital. O papel do professor é posto em xeque justamente nesta questão da imposição da forma culta. Ele tem de tomar o cuidado para não contribuir para a marginalização linguística das formas consideradas ‘não cultas’. Professores bem intencionados podem, sim, criminalizar as formas consideradas não cultas (por quem?), que podem ter profundas raízes sociais e culturais, históricas, portanto, dignas de respeito e consideração. Esta desqualificação da língua usada nas comunidades pode levar a um processo de perda de auto-estima e, o pior, até da própria identidade da criança e do jovem em processo de aprendizado. A postura do educador deveria, então, ser a de oferecer a forma culta como algo próprio do mundo escolar, sem contudo, desqualificar ou desvalorizar os saberes trazidos pelo jovem, de sua própria comunidade. Um desafio da mediação entre cultura popular e cultura erudita é a língua, como já foi dito. Neste sentido, programas governamentais para a redução do analfabetismo esbarram neste problema de forma um tanto desastrada. Os programas governamentais de alfabetização, não raro, não levam em conta (quando não solapam completamente) os saberes locais, realizando um trabalho de ensino da escrita de forma totalmente anacrônica. Isto leva a cumprimento de metas que escamoteiam o analfabetismo funcional existente até entre alunos do ensino médio, que muitas vezes não conseguem sequer elaborar um texto simples, com começo, meio e fim. Para Vito Giannotti, a questão da falta de instrução também está fortemente associada às condições socioeconômicas. “Alguém acredita que quem tenta sobreviver com até dois salários mínimos entrou alguma vez numa biblioteca, livraria, cinema, teatro ou algo parecido?”(5), indaga. Outro problema é que, antes que os jovens pudessem dominar a linguagem escrita no Brasil, a TV passou a entrar maciçamente nos lares de todo o país, produzindo uma nova invasão cultural não letrada, que alterou os rumos da própria forma do educar. Hoje são mais de 95% dos lares cobertos por este eletrodoméstico. O educador também deve considerar a influência deste meio de comunicação na formação (ou não-formação) dos jovens, desmistificando-o, antes de ‘demonizá-lo. Mas, a capacidade da TV de gestar uma nova ‘cultura’ e de manipular os corações e mentes no sentido da criação de uma geração de consumidores é outra questão a ser abordada. As ‘muralhas da linguagem’ a que se refere Giannotti, podem ser a da baixa escolaridade, mas também outras, como o ‘intelectualês’, ou seja, a inclusão somente dos que tem alta escolaridade, para compreender complicados termos técnicos ou específicos de uma determinada profissão. Deste são derivados o ‘juridiquês’, o ‘internetês’ e tantos outros. O direito brasileiro diz que ‘ninguém pode alegar a ignorância da Lei’ para descumpri-la. Mas é óbvio que os mais humildes irão desconhecer a Lei, não por desejar burlar a lei ou descumpri-la, mas simplesmente por não dominarem este código. Assim, existem outras línguas dentro da língua, como a linguagem policial, a dos marginais, a dos clérigos, dos economistas (o ‘economês’, que nos faz parecer burros completos ao assistirmos ao noticiário sobre ‘commodities’, ‘câmbio’, ‘taxa selic’, e outras mais). Outro exemplo prosaico. Alguém já tentou decifrar a linguagem ou mesmo a letra de um médico em uma simples receita de medicamento? Ou já entendeu as letras miúdas de uma bula de remédio? Ou mesmo, saindo da área médica, alguém já entendeu completamente um contrato assinado, ao comprar uma casa ou uma simples máquina de costura? E assim, entre dezenas de milhares de códigos escritos para não serem entendidos, diga-se, vamos navegando, tentando levar aos jovens algum tipo de compreensão deste mundo absurdo. Mas o povo tem suas próprias formas de comunicação. Assim, temos a língua da favela, dos operários (em que pese que, por muitas vezes, a língua dos sindicalistas não é entendida nem sequer pelos próprios operários), a língua das ‘tribos’: do Hip-Hop, dos ‘Pagodeiros’, da turma do Rock Hardcore. O problema é a quebra destas barreiras e uma maior compreensão e interação entre as diferentes expressões culturais. Este diálogo é fundamental para quebrarmos os preconceitos e caminharmos em direção ao outro. Nossos dizeres tem muito a dizer aos dizeres dos outros, mas eles também tem muito a nos dizer. Cabe ao educador descer deste ‘pedestal’ dos saberes controláveis e apuráveis através dos livros didáticos, e avançar em direção a uma educação realmente inclusiva e que leve em conta as múltiplas formas de comunicação e interação entre os grupos sociais e culturais. Para cumprir parte destes objetivos, apresentamos uma série de reflexões a partir de artigos, textos, materiais iconográficos e fílmicos, que aos poucos serão apresentados neste espaço, por meio eletrônico (Internet), seja diretamente, seja por meio de download (PDF ou outros formatos). ________________________________ (1) A Linguagem Escravizada, Florence Carboni e Mário Maestri, pág 09. Ver Bibliografia. (2) Idem, pág. 33. (3) Ibidem, pág. 36 (4) Serafim da Silva Neto, autor da ‘Introdução ao Estudo da Língua Portuguesa no Brasil (1951). Ver bibliografia. (5) Vito Giannotti, em “Muralhas da Linguagem” (2004). Ver bibliografia.
criado por marcio.amendola    07:50:12 — Filed under: 1 - História e Comunicação
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